Não pensei duas vezes, decidi me recuperar no trono da minha casa, muito mais confortável. Saindo naquela hora, acabei chegando às quatro.
Chegando na porta de casa, achei estranho, o capacho não estava na porta. Já entrei perguntando para a Margarete o que tinha acontecido com o capacho.
O susto foi tanto que nem consegui ouvir a resposta.
Lá estava a Margarete no sofá, cavalgando o Ernesto, o zelador do prédio. Eu nem lembrava qual tinha sido a última vez que vi aquele olhar da Margarete.
Demorou alguns segundos para ela perceber que eu estava em pé na porta.
A madeira do sofá não parava de gemer, não sei como não quebrava. Nunca imaginei que uma madeira fosse tão resistente.
Ernesto só entendeu o que estava acontecendo quando Margarete saiu correndo para o quarto. Ele se assustou, começou a falar umas palavras que não entendi nada.
Não deu tempo nem pra conversar, senti a bicada do urubu, tive que correr para o trono.
Entrei, fechei a porta sem olhar para trás. Lá dentro, ouvi sussurros e uns barulhos estranhos, parecia até que alguém estava engasgando com algo grande. Ouvi a despedida.
Depois que recompus a dignidade, tomei um banho de coragem e saí.
A primeira coisa que pensei foi: preciso sumir com isso daqui. Nunca mais conseguiria entrar em casa e conviver com isso.
Desci em silêncio, fui até a loja de ferramentas mais próxima e comprei um machado. Achei estranho quando passei pela portaria com o machado na mão e o porteiro se assustou, parecia que ele sabia de algo, mas não me falou nada. O olhar dele dizia mais de mil palavras; minha testa ardia naquela hora.
Comecei a escutar uma gritaria e vi algumas pessoas correndo, mas eu estava tão focado que nem consegui entender direito quem era.
Ao abrir a porta do elevador, lá estava o Ernesto: jeans tradicional, camiseta vermelha com a foto de alguém fumando charuto. O susto do Ernesto foi tão grande quando me viu com o machado na mão que pensou em sair, mas, vendo que entrei, entrou junto. E assim subimos. Silêncio cornomenal – elevador sempre é assim.
No 13, nem me despedi, só saí. Ernesto falou alguma coisa, mas tão baixo que nem ouvi. Acho que o som do machado batendo no chão desencorajou ele de tentar de novo.
Fui até meu apartamento, arrastando o machado. Abri a porta e Margarete estava chorando. Quando ela viu o machado, começou a gritar. Eu não estava entendendo nada, mesmo assim, ela não parava de chorar e gritar.
Levantei o machado assim mesmo e aí ela saiu correndo.
Acertei com tudo. Me vinguei.
Soquei o machado com tanta força até não sobrar sofá. Quebrei a madeira em pedaços menores.
Quando me cansei, olhei pro lado e lá estava Margarete, em silêncio, de boca aberta.
Atrás dela: Ernesto, o porteiro e duas vizinhas fofoqueiras.
Eu não entendia nada, só falei:
PRECISAMOS COMPRAR UM SOFÁ NOVO. SERÁ QUE, SE COMPRAR NA MAGALU, ENTREGA HOJE?
Naquela noite, foi difícil dormir na cama. Margarete também estava acordada. Do nada, senti uma sensação estranha, vontade de fazer algo.
Avisei a Margarete que ia caminhar para arejar a mente. Ela, de olhos arregalados, só balançou a cabeça concordando rapidamente. Margarete estava diferente naquele dia.
Pensei que nunca mais veria Ernesto depois daquilo, mas ao sair do prédio, dei de cara com ele e o resto do sofá.
Ele ficou me olhando, fui na direção dele. Peguei um pedaço de madeira e comentei:
QUE MADEIRA RESISTENTE, HEIN! ATÉ QUANDO ELA VAI FICAR AQUI?
Notei que no meu bairro aumentou o número de caminhantes sem alma. Nos últimos anos só cresceu e nenhum político dos direitos humanos fez nada. Eles estão aqui por causa dela.
Não sou contra ela, nunca me interessei, nem entendi, até desprezo quem busca ela. Mas se querem, que seja por livre vontade. Liberdade individual é isso: cada um faz o que quiser da vida, sem atormentar a vida do outro.
Continuo andando e encontro um comerciante. Ele pergunta por que estou com um pedaço de madeira na mão.
NÃO SEI, MAS ESTOU FELIZ DE SEGURAR ESSA MADEIRA. É RESISTENTE, A DANADA.
NÃO, OBRIGADO.
Vou andando sem rumo, cada vez mais longe de casa, mas aquele desejo não passa. Depois de horas andando, escuto uma gritaria na rua.
Um casal e dois caras em uma moto. Os dois da moto gritam com o casal. De repente, sinto um chamado e corro na direção deles.
Aquele pedaço de madeira serviu para descolar o capacete do motorista. Eles se desequilibraram, caíram.
O garupa ficou preso debaixo da moto e do corpo do motorista, desesperado, me apontando uma arma. Acho que ele nunca tinha usado uma daquelas, ou eu estava com sorte. Ele disparou, ouvi alguns zunidos passando, mas não acertou. Tem gente que fica cega de nervoso.
O garupa ficou mais preocupado quando acabaram as balas e me viu sorrindo, segurando a madeira.
Nem precisei fazer nada. O escândalo do garupa foi tanto que, do nada, apareceu um monte de viatura, repórteres de rádio e televisão.
De onde saiu esse povo, não sei. Mas quiseram que eu falasse. Eu, tímido, preferi ficar quieto.
O casal me chamou de herói. Por sorte, estava com uma camiseta dos Vingadores. Gosto do Capitão América.
Olhei no relógio, era tarde, hora de voltar para casa. A polícia até incentivou enquanto tirava os repórteres de perto.
Só não entendo porque os repórteres falavam que os motoqueiros estavam trabalhando e que eu estava errado por segurar apenas um pedaço do sofá. Não faz sentido. Todo mundo me achando herói, mas quem tem o poder de comunicação me chamava de bandido.
Mesmo com o casal me chamando de herói e a polícia do meu lado, os repórteres diziam o contrário.
Por que as pessoas são assim? Quem será que o povo vai acreditar quando ver a matéria no jornal?
Foda-se. Voltei pra casa.
Chegando, só pensava em fazer a cama gemer igual ao sofá. Espero que a Margarete esteja acordada e não esteja cansada.
No outro dia, quando acordei, ao tomar café e assistindo ao jornal da manhã, vi que foi aprovada na Câmara dos Deputados uma medida provisória que aumentava alguns impostos dos malditos empresários capitalistas e proibia a venda de motos no Brasil.
Os repórteres falaram que era para reduzir o aumento dos casos de violência envolvendo moto.
Acho que vai funcionar.
O interfone tocou. Era a entrega do sofá. Graças ao capitalismo, chegou o meu sofá novo.
Hoje de tarde tem!
Nunca mais cheguei antes das oito em casa.